Newsletter 9 | Junho 2026
As versões de nós que ficaram pelo caminho — e o que elas ainda têm a nos dizer
Saí para almoçar com uma amiga querida outro dia. Ela me contava da filha, que foi estudar fora do país há cinco anos e acaba de ser aprovada para mais dois de pós-graduação. Minha amiga sempre imaginou que viveriam uma relação de mãe e filha muito próxima. E vivem. Só que à distância.
Em nenhum momento ela disse que a filha deveria ter ficado. Nem que escolheria diferente, se pudesse voltar no tempo. Mas, enquanto a ouvia, pensei em como uma única decisão é capaz de redesenhar uma vida inteira.
Fiquei pensando nas minhas próprias bifurcações. Na Pitty que teria seguido no mercado financeiro até se aposentar. Na que teria se mudado para Nova Iorque mas disse não ao chefe pois estava apaixonada – e o homem com quem queria construir uma vida morava no Brasil.
Viver exige escolhas. E toda escolha tem uma característica pouco celebrada: ela cria uma história enquanto encerra inúmeras outras. A faculdade que ficou pela metade. O negócio que nunca saiu do papel. O amor que poderia ter sido. A carreira que ficou num rascunho. A vida que teria existido se uma decisão, tomada décadas atrás, tivesse sido diferente.
Uma participante da Anthea disse algo que me marcou: “Juventude são as infinitas possibilidades de futuro.” Experimentamos versões de nós mesmos como quem experimenta roupas diante de um espelho. Tudo ainda aberto. Com o tempo, porém, as escolhas ganham permanência. O que era aberto começa a ter contorno. E cada caminho tomado carrega, invisível, todos os que ficaram.
O psicanalista britânico Adam Phillips escreveu um livro inteiro sobre isso. Somos habitados não apenas pela vida que construímos, mas também pela vida que imaginamos que poderíamos ter construído. Ela nos acompanha. Às vezes como fantasia, às vezes como saudade. Essas vidas paralelas costumam parecer extraordinariamente atraentes — não porque fossem melhores, mas porque nunca precisaram enfrentar a realidade. Nunca tiveram contas a pagar, crises a atravessar, noites mal dormidas. Permaneceram intactas na imaginação.
Enquanto isso, a vida real seguiu. Imperfeita, complexa, humana.
Talvez seja por isso que chegamos à meia-idade carregando uma sensação difícil de nomear. Não tristeza, não arrependimento — mas a impressão persistente de que alguma coisa ficou por terminar. O analista junguiano James Hollis observa que uma das tarefas centrais da maturidade é aprender a abandonar as fantasias sobre quem deveríamos ter sido. Simplesmente porque permanecem ali muito depois de terem deixado de nos servir.
Há sonhos que não morrem. Apenas envelhecem dentro de nós. Ficam numa cadeira silenciosa à mesa da vida. Esperando uma despedida que nunca veio.
Jung foi além: o desenvolvimento psicológico não acontece pela eliminação dessas partes esquecidas, mas pela sua integração. O viajante que ficou. O empreendedor que escolheu a segurança. Essas figuras não precisam desaparecer — precisam ser reconhecidas. Porque existe diferença entre honrar uma possibilidade e permanecer preso a ela.
Nenhuma existência consegue conter todas as possibilidades — e isso não é tragédia. É o que torna cada trajetória única. Às vezes descobrimos que as qualidades que associamos àquela versão não vivida ainda podem encontrar expressão — de formas que não esperávamos.
A vida não vivida pode ser um convite. E a vida escolhida é a única capaz de continuar florescendo.
Que possibilidade ainda ocupa espaço dentro de você apenas porque nunca foi solta? Que sonho já cumpriu seu papel, mas continua sendo carregado como uma dívida? O que poderia nascer se algumas dessas vidas imaginadas fossem finalmente liberadas para partir?