Newsletter 10 — Julho 2026
Como continuar ampliando o campo de possibilidades na segunda metade da vida
Cheguei há uma semana de uma viagem inesquecível à Tanzânia. Dias tranquilos de safari e contemplação, entregues ao ritmo da natureza, sem pressa. Logo no primeiro dia, o guia perguntou: “O que vocês mais gostariam de ver?” Respondi sem hesitar: “baby lions!”. E tivemos a sorte de encontrar muitos. Assim como elefantes, girafas, leopardos, hipopótamos e rinocerontes. Uma abundância de vida selvagem. Mas o que ficou comigo foi outra coisa.
Era noite. O jipe parado no meio da savana, as luzes apagadas, o silêncio. Aos poucos, pequenos pontos luminosos começaram a surgir ao nosso redor. Eram vaga-lumes. Milhares. Acima deles, um céu completamente estrelado. Durante alguns minutos, já não era possível distinguir onde terminava uma coisa e começava outra.
O psicólogo Dacher Keltner chama essa experiência de awe — uma emoção entre o encantamento e o assombro. Suas pesquisas mostram que, diante de algo vasto ou surpreendente, o mundo parece maior do que nós. E também nos sentimos mais vivos.
Anos antes, vivi algo muito diferente, mas estranhamente parecido. Não havia vaga-lumes nem savana. Havia apenas um convite para entrar em um território completamente desconhecido. E, com isso, a possibilidade de ser surpreendida pelo inesperado.
Eu ainda atuava como Conselheira de Administração quando minha psicóloga sugeriu que eu fizesse uma formação em Terapia Familiar e de Casais.
“Eu? Terapeuta?”
Aquilo não combinava em nada com a carreira que eu havia construído.
“Não sei se você vai ser terapeuta”, ela respondeu. “Mas quero que experimente um lugar que você conhece muito pouco. Um lugar de não-saber, de não precisar ser a melhor aluna, nem impressionar ninguém.”
Alguns meses depois, uma das minhas melhores amigas me contou que faria exatamente o mesmo curso, no mesmo lugar. Nunca tínhamos conversado sobre isso. A sincronicidade bastou.
Entrei sem saber onde aquilo iria dar. Não pretendia mudar de carreira nem buscava uma nova identidade. Pela primeira vez em muito tempo, aceitei começar alguma coisa sem exigir uma justificativa antecipada.
Durante os três anos de formação, aprendi muito sobre relações humanas. Mas o aprendizado mais inesperado foi outro: descobri que era possível voltar a ser principiante sem ansiedade, sem necessidade de performance ou de validação externa.
Saí dali com uma sensação que não experimentava havia muito tempo: a de que, aos cinquenta e poucos anos, eu ainda podia me tornar muitas coisas. Até terapeuta, se quisesse.
Hoje vejo aquele curso como uma entre várias experiências que venho cultivando de me colocar novamente diante de uma primeira vez.
Na infância e na juventude, as primeiras vezes simplesmente acontecem. Elas fazem parte da própria vida. Não precisamos procurá-las.
Na segunda metade da vida é diferente. Quanto mais vivência acumulamos, maior pode se tornar o desejo de previsibilidade. Passamos a querer entender onde um caminho vai dar antes mesmo de dar o primeiro passo. Procuramos garantias de utilidade, coerência e retorno. E, sem perceber, começamos a evitar justamente os lugares onde ainda não somos bons, as perguntas para as quais não temos resposta, os caminhos cujo sentido só poderá ser descoberto depois de percorridos.
Karen Walrond chama de intentional amateurism a escolha deliberada de continuar aprendendo apenas pelo prazer que isso traz. Não para acrescentar uma linha ao currículo ou transformar um hobby em profissão, mas para preservar a curiosidade — e a capacidade de se maravilhar.
As primeiras vezes não acabam quando envelhecemos. Elas apenas deixam de acontecer por acidente. Se quisermos continuar ampliando nosso campo de possibilidades, precisamos voltar a escolhê-las deliberadamente.
Na volta da viagem, terminei de ler Se eu soubesse contar infinitos. Em uma das últimas páginas do livro, encontrei uma frase que me marcou: “A vida só se entende de trás pra frente.”
Penso que essa é uma das recompensas da maturidade: olhar para trás e perceber o fio que unia acontecimentos que pareciam isolados. Mas também um lembrete de que esse fio só existe porque, em algum momento, aceitamos caminhar sem saber exatamente para onde estávamos indo.
Eu havia atravessado o oceano para ver leões. Voltei transformada por algo que nem sabia que estava procurando. Foi isso que os vaga-lumes me lembraram naquela noite.
E você? Que primeiras vezes você tem evitado? O que você aceitaria começar sem saber onde vai dar?