E se não servir para nada?

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E se não servir para nada?

Newsletter 11 | Agosto 2026

O valor das coisas que fazemos simplesmente porque gostamos

Este ano voltei a dançar. Logo na primeira aula, quando me vi diante da barra fazendo pliés, pensei: como pude ficar tantos anos longe disso? Gosto da música, da estética, da consciência corporal. Dançar faz bem para o meu corpo — e principalmente para minha alma.

Só que, em poucas semanas, alguma coisa mudou. Comecei só querendo dançar e logo estava querendo dançar bem. Acompanhar a turma, decorar a coreografia. Quando precisei faltar a uma aula, perdi o fio. O corpo ainda lembrava os passos, mas minha memória de 54 anos já não dava conta de uma música inteira. A cada semana eu ficava mais tensa. Desanimei.

Uma atividade que eu havia escolhido por prazer tinha virado mais um lugar de performance e ansiedade.

Cancelei minha matrícula. Hoje meu marido e eu estamos aprendendo forró. Nenhuma expectativa de desempenho. Nem apresentação de fim de ano. Dançar abraçados numa quarta-feira à noite basta. E, quando erramos, damos risada.

Quando foi que começamos a transformar tudo o que gostamos de fazer em algo que precisamos fazer bem? Quando foi que começamos a exigir que tudo aquilo a que dedicamos tempo tivesse que servir para alguma coisa?

Pensei nisso depois de ouvir, no SP2B, o psicoterapeuta Victor Stirnimann dizer que nos falta fazer coisas “por todas as outras razões e por razão nenhuma”. Me chamou atenção porque passamos boa parte da vida aprendendo justamente o contrário. Estabelecemos objetivos, perseguimos resultados, aprimoramos competências.

Aprendemos a transformar tempo em realização — e somos recompensados por isso. Ambição, disciplina e competência constroem carreiras, empresas, projetos, independência. O problema começa quando levamos essa mesma lógica para todos os espaços da vida.

Não basta correr; queremos melhorar o pace. Não basta ler; contabilizamos quantos livros terminamos no ano. Gostamos de cozinhar e pensamos em fazer um curso. Fotografia pode virar um perfil no Instagram. Cerâmica, quem sabe, uma pequena marca.

Até aquilo que deveria escapar da produtividade acaba colonizado por ela.

O filósofo Kieran Setiya, professor do MIT e autor de Midlife: A Philosophical Guide, oferece uma distinção interessante. Algumas atividades são orientadas para um fim: concluir um projeto, terminar uma pós-graduação, chegar a um determinado lugar. Ele as chama de télicas. Outras valem enquanto acontecem: ouvir música, caminhar, conversar com um amigo, brincar com uma criança. São atélicas. Não há nada a concluir.

Precisamos das duas. Setiya não propõe uma vida sem objetivos ou ambição. Seu ponto é que uma vida excessivamente organizada em torno de projetos e realizações pode produzir uma espécie de vazio no presente: estamos sempre a caminho da próxima coisa. Alcançamos uma meta e, quase imediatamente, outra ocupa seu lugar.

Oliver Burkeman explora outra face dessa mesma obsessão em Four Thousand Weeks: ficamos mais eficientes para liberar tempo e logo encontramos novas tarefas para preencher o espaço conquistado. Até o descanso ganha uma justificativa produtiva — dormimos melhor para render mais no dia seguinte. Reconhecer que nunca daremos conta de tudo, escreve ele, pode ser libertador, porque nos permite escolher algumas coisas que importam sem precisar “maximizar” a vida inteira.

Falamos muito sobre tudo o que ainda cabe numa vida mais longa: novas carreiras, cursos, negócios, viagens, aprendizados. A perspectiva de ter mais tempo abre possibilidades que gerações anteriores simplesmente não tiveram.

Mas esse tempo a mais não precisa ser preenchido apenas por novas realizações. Pode comportar também espaços que não precisam ser convertidos em desempenho, utilidade ou resultado. Há valor no que não entra no currículo nem vira negócio, no que fazemos sem pensar se temos talento ou se alguém vai admirar, sem a obrigação de sair dali uma versão melhor de nós mesmos.

Coisas que valem enquanto estão acontecendo.

O forró tem ocupado esse lugar para mim. Não preciso estar melhor daqui a seis meses. Ninguém está contando meus passos.

Numa quarta-feira qualquer, meu marido e eu estamos apenas dançando. E isso basta.

Perguntas
frequentes

O que é a Anthea?

A Anthea é um espaço de desenvolvimento e conexão dedicado às questões que ganham novos contornos na segunda metade da vida. Reúne programas, encontros, conteúdos e acompanhamento individual para quem quer refletir com mais profundidade sobre o que está vivendo — e sobre o que ainda quer viver.

Para quem é a Anthea?

Para pessoas que chegam à segunda metade da vida com muito construído, mas também com novas perguntas. Algumas atravessam uma transição clara; outras apenas percebem que antigas respostas já não bastam e querem abrir espaço para pensar no que vem pela frente.

Preciso estar passando por uma transição para participar?

Não. Uma ruptura pode ser o ponto de partida, mas não é condição. A Anthea também é para quem quer sair do modo automático, ampliar perspectivas e fazer escolhas mais conscientes sobre os próximos capítulos.

Como sei qual caminho da Anthea faz mais sentido para mim?

Depende da pergunta que está pedindo espaço agora. Há caminhos para transições profissionais, processos mais amplos de vida, conversas individuais e encontros para ampliar repertório. Conheça cada proposta ou entre em contato para conversarmos.

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