Uns meses atrás, ouvi em casa: “Mãe, você precisa parar de falar de plantas e flores. Tá parecendo a vovó.”
Eu ri e me lembrei da pergunta que abre o podcast Tantos Tempos: “Quando é que a gente fica velho?” Será que é quando começamos a mandar fotos de árvores para as amigas? Quando passamos a acompanhar a florada dos ipês pela cidade? Quando uma planta que antes nem notaríamos passa a merecer um comentário?
No último feriado, meu marido e eu levamos meus pais para Mendoza. Nunca tínhamos viajado só nós quatro. Foi maravilhoso. Eles estão na casa dos 80 anos e, apesar de alguns protestos familiares, incluí uma bike trip no programa.
Durante aqueles dias, ouvi muitos comentários sobre árvores e flores — devidamente registrados em uma infinidade de fotos. Mas não eram só as plantas.
Meus pais queriam saber o nome de uma árvore que não conheciam, sim, mas também o significado de uma palavra numa placa, o modelo de um carro que havia cruzado a estrada. A procedência do vinho, a família por trás dele — tudo despertava interesse. Perguntavam sem cerimônia e tinham sede de respostas. Os guias se esbaldaram.
Minha mãe tem uma bateria social inesgotável. Puxa conversa na fila do banheiro, quase faz amigos no embarque do avião e, num restaurante, é perfeitamente capaz de descobrir a vida de quem está na mesa ao lado antes da sobremesa. Meu pai observa e ri, com um olhar que, depois de tantos anos, ainda me parece apaixonado.
Os dois comem com gosto, feito adolescentes, topam experimentar de tudo. E encararam as pedaladas sem hesitar. A bicicleta trouxe de volta memórias da infância da minha mãe. Ao meu pai, uma sensação de potência e autonomia que foi bonito testemunhar.
Confesso que fui para Mendoza com o radar ligado: esse passeio não vai cansar demais, será que a bicicleta foi uma boa ideia, o quarto não é muito longe do restaurante? Só que, aos poucos, parei de me preocupar tanto com o que a idade poderia lhes tirar. E fui percebendo o que estava ali.
A curiosidade de aprender, o apetite, a conversa fácil com desconhecidos, o encantamento diante de uma árvore, o vento no rosto durante as pedaladas. Não era juventude. Era vitalidade.
E havia vitalidade também no jeito como se relacionavam. Claro que se irritam, discordam, respondem atravessado. Mas não se ignoram. Um comenta, o outro responde; um mostra algo, o outro se vira para ver. Riem juntos. Trocam olhares num código só deles: eu sei o que você está pensando; eu também lembrei disso.
Esther Perel escreve sobre uma tensão presente nas relações longas. Buscamos a segurança de conhecer quem está ao nosso lado, mas uma relação também precisa de espaço para que o outro continue sendo outro — alguém que nunca alcançamos por inteiro e pode nos surpreender.
Perel conta que, mesmo em um casamento de muitos anos, faz perguntas ao marido esperando ouvir algo que nunca ouviu. E ouve. Ou como disse a terapeuta de casais Marisa Micheloti no último Anthea Talk, quando a questionei sobre o que mantém os vínculos vivos: a curiosidade de olhar para o mesmo e ver algo diferente.
Há nisso uma ideia de intimidade interessante: não a de finalmente decifrar alguém, mas a de seguir descobrindo.
Porque, com o tempo, um “já sei” vai se instalando.
Já sei do que gosto. Já sei como isso termina. Já sei o que ele vai dizer. Já sei como ela vai reagir. Já sei quem meus pais são. Já sei quem eu sou.
A familiaridade vai virando certeza.
E isso não acontece apenas a dois. Quanto mais vivemos, mais repertório acumulamos — e cresce também a tentação de usar o que já sabemos para antecipar o que ainda nem aconteceu. O novo chega e nós o recebemos com respostas antigas.
Meus pais ainda querem saber.
No fim do nosso último passeio, dei uma espiada por cima do banco da van. Observei, emocionada, que estavam de mãos dadas.
Na manhã seguinte, ao deixar o hotel, passei por um túnel coberto de plantas, com centenas de pequenos cartões pendurados com mensagens de outros hóspedes. Peguei um em branco e escrevi: “Que as lições de amor sejam as que fiquem.”
PS: alguém mais reparou nos jacarandás esta semana?