Os produtos que estão na vitrine, mas não vendem

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Newsletter 12 | Setembro 2026

Os produtos que estão na vitrine, mas não vendem

O que aparece quando deixamos de contar apenas a parte bem resolvida da nossa história

No final do dia que inaugurou a primeira turma do Novos Rumos, o Amarildo disse uma frase que nunca esqueci:

“Gostei disso. Aqui a gente fala dos produtos que estão na vitrine, mas não vendem.”

Eu ri. E entendi imediatamente o que ele queria dizer.

Naquele grupo havia pessoas com carreiras importantes, repertório, realizações, histórias que caberiam muito bem numa apresentação profissional. Mas não era disso que elas estavam falando.

Falavam do que não sabiam. De escolhas das quais duvidavam. Do medo de perder relevância, de não encontrar pertencimento, de descobrir que o lugar em que haviam chegado já não fazia tanto sentido. Falavam de relações, de solidão, de pais, filhos, casamentos. De partes de suas histórias que dificilmente apareceriam num currículo ou numa conversa de networking.

O que eu não esperava era a rapidez com que isso aconteceria. Bastava alguém começar a falar de verdade para alguma coisa mudar na sala. Era quase possível ouvir um “ufa, então aqui eu posso contar isso”. E aquela abertura parecia dar aos outros permissão para fazer o mesmo.

Ao longo deste primeiro ano da Anthea, vi esse movimento se repetir em grupos diferentes. Pessoas que haviam acabado de se conhecer contando coisas que normalmente protegiam — dores, vergonhas, escolhas que ainda não conseguiam explicar nem para si mesmas.

O que mais me impressionou foi o que acontecia do outro lado. As pessoas escutavam, faziam perguntas, às vezes ficavam em silêncio. Havia uma generosidade enorme em cuidar daquilo que o outro acabara de colocar na sala.

Em um dos encontros, me emocionei ouvindo histórias de amor que, muitos anos depois, haviam ajudado a reparar feridas antigas. Pessoas adultas, realizadas, contando sobre relações nas quais encontraram acolhimento para partes de si que vinham machucadas de muito longe.

É curioso pensar que podemos conviver por anos com algumas pessoas sem saber nada disso. Sabemos onde trabalham, o que fazem, com quem são casadas. Conhecemos a trajetória — mas uma trajetória diz muito pouco sobre uma vida.

Foi uma participante que encontrou as palavras que eu não tinha:

“Fico maravilhada como cada ser humano é um universo. A gente vive de um jeito que não vemos isso nas pessoas… aqui a gente vê.”

Acho que foi uma das coisas mais bonitas que ouvi neste ano.

Passei a pensar em quantas vezes convivemos com uma versão muito pequena uns dos outros. Não porque as pessoas sejam superficiais ou estejam deliberadamente escondendo alguma coisa. A vida cotidiana simplesmente não costuma abrir muito espaço para certas histórias. Perguntamos o que alguém está fazendo, raramente o que precisou deixar para trás. Vemos alguém seguro e não fazemos ideia do caminho que percorreu para chegar até ali.

Quanto mais desse universo eu conhecia, menos espaço sobrava para conclusões apressadas sobre alguém. Conhecer histórias tão diferentes da minha me ensinou um caminho mais rápido para a compaixão. Passei a me lembrar com mais frequência de que sempre existe muito mais acontecendo dentro de uma pessoa do que aquilo que conseguimos enxergar.

E isso também foi me deixando mais relaxada.

Quando comecei os primeiros grupos, eu queria estar preparada para tudo. Estrutura, conteúdo, sequência, horários. Minha cola estava sempre por perto. Eu havia criado o programa e sentia uma responsabilidade enorme de fazer com que aquilo funcionasse.

Continuo preparando cada encontro com cuidado. Mas aprendi a abandonar uma pergunta quando outra, mais interessante, aparece; a deixar uma conversa ocupar mais tempo do que eu havia planejado e a não preencher imediatamente um silêncio. Às vezes, meu papel não é conduzir o grupo para onde imaginei que ele deveria ir, mas prestar atenção para onde ele está indo.

Enquanto as pessoas colocavam na vitrine coisas que costumavam deixar escondidas, eu também fui abrindo mão de um pouco de controle e da necessidade de saber com antecedência o que deveria acontecer.

Há um ano, eu sabia bastante sobre o programa que queria criar — tinha estudado, pesquisado, desenhado uma metodologia. O que eu não tinha como saber era quem entraria naquela sala e tudo o que aquelas pessoas trariam com elas.

No último encontro de uma das turmas, entre as frases que ficaram registradas, havia esta: “Confiar nos passos sem ter tanta clareza do destino.”

Achei que era sobre eles.

Um ano depois, percebo que era sobre mim também.

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